Há algum tempo, enquanto lia um livro sobre gestão diária e diferentes técnicas utilizadas em médias e grandes empresas, deparei-me com uma expressão que despertou imediatamente a minha atenção: “Técnica do Advogado do Diabo”.
A associação entre a palavra “técnica” e uma expressão tão presente no senso comum fez-me parar para pensar. O que poderia esta ideia ter a ver com a forma como tomamos decisões?
Comecei a pesquisar mais sobre o tema e percebi que a chamada Técnica do Advogado do Diabo é frequentemente utilizada no empreendedorismo, na gestão e na tomada de decisões precisamente para testar ideias antes de serem colocadas em prática. Mas rapidamente percebi que o princípio podia ser aplicado a muito mais do que uma reunião de trabalho ou a uma nova ideia de negócio.
Também pode ser uma ferramenta interessante para a nossa vida pessoal.
O que é, afinal, a Técnica do Advogado do Diabo?
A expressão “Advogado do Diabo” é habitualmente utilizada para descrever alguém que assume deliberadamente uma posição contrária àquela que está a ser defendida. Não significa necessariamente que essa pessoa discorde da ideia.
O objetivo é outro: questioná-la. Procurar os seus pontos fracos. Levantar objeções. Imaginar o que pode correr mal. Colocar em causa aquilo que estamos a assumir como garantido. É, de certa forma, um brainstorming ao contrário.
Em vez de perguntarmos: “O que posso fazer para esta ideia resultar?”
Perguntamos: “O que pode fazer com que esta ideia não resulte?”
E esta simples mudança de perspectiva pode ser extremamente importante.
Porque é Tão Difícil Questionarmos as nossas Próprias Ideias?
Quando temos uma ideia na qual acreditamos, tendemos naturalmente a procurar informação que a confirme. É um fenómeno muito humano.
Se acreditamos que determinada decisão é a certa, procuramos argumentos que sustentem essa decisão. Se estamos convencidos de que determinada pessoa não gosta de nós, podemos começar a reparar sobretudo nos comportamentos que parecem confirmar essa ideia. Sem nos apercebermos, podemos entrar numa espécie de visão em túnel.
Passamos a olhar para a realidade através de uma única perspectiva. O problema é que, quando estamos demasiado envolvidos emocionalmente numa situação, torna-se mais difícil identificar aquilo que estamos a ignorar. É aqui que uma perspetiva diferente pode fazer toda a diferença.
“E Se Estiver Enganado?”
Esta pode ser uma das perguntas mais desconfortáveis que podemos fazer a nós próprios, mas também pode ser uma das mais úteis.
Imagine que está a pensar mudar de emprego. Pode passar horas a imaginar como será maravilhoso começar de novo, ter melhores condições ou trabalhar numa área que lhe interessa mais. Agora experimente colocar-se no papel de “Advogado do Diabo”:
O que pode correr mal?
E se as condições não forem tão boas como parecem?
E se a nova função não corresponder às suas expectativas?
E se estiver a tomar esta decisão apenas porque está frustrado com o emprego atual?
E se o problema que está a tentar resolver não estiver, afinal, relacionado com o seu trabalho?
Estas perguntas não significam que não deve mudar de emprego. Significam apenas que está a tomar uma decisão com mais informação e menos impulso.
O Advogado do Diabo Não Serve para Destruir Ideias
Este é um ponto importante.
Questionar uma ideia não significa necessariamente rejeitá-la. Pelo contrário. Pode ajudar-nos a torná-la mais sólida. Na área do empreendedorismo, por exemplo, esta técnica pode ser utilizada reunindo pessoas com experiências, conhecimentos e perspetivas diferentes e pedindo-lhes que procurem fragilidades numa determinada proposta.
A ideia não é encontrar alguém que “ganhe” a discussão. É descobrir aquilo que ainda não estamos a ver.
Como refere Hashimoto (2013), o Advogado do Diabo parte precisamente do pressuposto de que uma ideia deve ser questionada, criticada e colocada perante possíveis objeções antes de ser considerada viável. O mais engraçado (e útil!) é que talvez possamos transportar esta lógica para outras áreas da nossa vida.

Quando a nossa Mente Entra em Modo Defensivo
Há, contudo, um desafio importante. Quando alguém começa a questionar uma ideia nossa, podemos sentir que está a questionar nós próprios. E, na verdade, são coisas muito diferentes.
Imagine que apresenta uma ideia e alguém começa imediatamente a fazer perguntas: “Já pensaste neste risco?”, “E se isso não resultar?”, “Porque é que acreditas que essa pessoa vai reagir dessa forma?”, “E se estiveres a interpretar mal a situação?”.
É natural que algumas destas perguntas nos deixem desconfortáveis. Podemos sentir necessidade de justificar-nos, defender a nossa posição ou provar que temos razão. O nosso pensamento torna-se mais rígido precisamente quando aquilo de que precisávamos era de maior flexibilidade.
Em vez de ouvirmos para compreender, começamos a ouvir para responder.
E é aqui que podemos perder uma oportunidade importante de aprendizagem.
Um Exemplo que Surge Frequentemente em Consulta
Em contexto de consulta, por vezes encontro pessoas que chegam muito convictas de que determinada situação só pode ser interpretada de uma determinada maneira. Por exemplo, uma pessoa pode dizer: “Ele não me respondeu porque está zangado comigo.” .
A interpretação parece-lhe tão evidente que começa imediatamente a construir uma história à volta dela. É aqui que começa o meu trabalho. Podemos experimentar assumir, durante alguns minutos, o papel de Advogado do Diabo:
“E se não for isso?”
E se estiver ocupado?
E se não tiver visto a mensagem?
E se estiver a passar por alguma dificuldade que desconhecemos?
E se estiver realmente zangado, mas por uma razão completamente diferente?
Nenhuma destas hipóteses significa que a interpretação inicial esteja errada. O objetivo é perceber que uma hipótese não é necessariamente um facto. Quando conseguimos criar espaço entre aquilo que pensamos e aquilo que sabemos, começamos a tomar decisões de forma diferente.
Outro exemplo: Quando Sabemos que Precisamos de Mudar, mas Temos Medo
Outra situação que pode surgir em consulta acontece quando alguém sabe que precisa de fazer uma mudança, mas encontra constantemente razões para adiá-la. Essas razões normalmente são muitas…
“Quero mudar de emprego, mas não é a altura certa.”
“Quero terminar esta relação, mas talvez as coisas ainda possam melhorar.”
“Quero começar aquele projeto, mas provavelmente não vai resultar.”
Nestes casos, podemos inverter o exercício. Em vez de sermos apenas o Advogado do Diabo da mudança, podemos sê-lo também da não mudança.
“E se ficar tudo exatamente como está durante os próximos dois anos?”
“O que poderá acontecer se continuar a adiar?”
“O que está a tentar proteger ao não tomar esta decisão?”
“Qual é o verdadeiro risco: mudar ou permanecer exatamente onde está?”
Por vezes, estas perguntas não nos dão uma resposta imediata. Porém, ajudam-nos a encontrar perguntas melhores. A maior parte das vezes, é precisamente aí que começa uma mudança.
Precisamos de Bons “Advogados do Diabo” na Nossa Vida
Há uma ressalva importante: nem todas as pessoas são boas candidatas para desempenhar este papel. Se pedirmos a alguém que apenas critique, sem conhecimento, respeito ou intenção construtiva, podemos acabar simplesmente com uma discussão.
Além disso, quando existe uma forte dinâmica de grupo, as pessoas podem ter tendência para concordar com a maioria, mesmo quando têm dúvidas. Por isso, a técnica funciona melhor quando existe diversidade de perspectivas, liberdade para discordar e segurança para colocar questões difíceis.
Precisamos de pessoas que não tenham medo de nos dizer: “Não tenho a certeza de que isso seja assim.” ou “Já pensaste nesta possibilidade?”, ou simplesmente, “E se estiveres errado?”. Não para nos diminuírem, mas sim, para nos ajudarem a pensar.
E se Aplicássemos esta Técnica a Nós Próprios?
Nem sempre precisamos de reunir um grupo de pessoas para utilizar este princípio. Podemos aprender a fazer algumas destas perguntas individualmente. Quando estiver perante uma decisão importante, experimente perguntar:
- Que informação estou a ignorar?
- O que pode correr mal?
- Que argumentos existem contra a minha posição?
- Estou a procurar informação ou apenas confirmação?
- Estou a confundir uma interpretação com um facto?
- O que diria a alguém de quem gosto se estivesse exatamente nesta situação?
- Que possibilidade estou a evitar considerar porque me deixa desconfortável?
- O que poderia mudar a minha opinião?
Estas perguntas não têm como objetivo criar mais ansiedade ou fazer-nos duvidar constantemente de tudo. O objetivo é outro: desenvolver pensamento crítico sem perder a capacidade de agir.
Questionar Não é Duvidar de Tudo
Existe uma diferença importante entre pensamento crítico e excesso de dúvida. Questionar uma decisão pode ajudar-nos a tomar melhores decisões. Questionar constantemente todas as nossas decisões pode, pelo contrário, alimentar insegurança e indecisão.
Por isso, o objetivo não deve ser encontrar uma decisão absolutamente perfeita. Essa decisão provavelmente não existe. O objetivo é chegar a uma decisão suficientemente ponderada, conhecendo os riscos, reconhecendo as nossas limitações e aceitando que alguma incerteza fará sempre parte do processo.
Porque, no final, não conseguimos prever tudo. No entanto, podemos aprender a olhar para uma situação de mais do que um ângulo.
Da Próxima vez, Convide o seu Advogado do Diabo
Quando tiver uma ideia nova, estiver perante uma decisão importante ou sentir que está demasiado certo de determinada interpretação, experimente parar.
Em vez de procurar imediatamente argumentos que confirmem aquilo em que acredita, faça o exercício contrário. Pergunte: “Se tivesse de encontrar os problemas desta ideia, quais seriam?”
Talvez descubra fragilidades que pode corrigir. Talvez perceba que a sua ideia é mais sólida do que imaginava ou encontre uma alternativa que ainda não tinha considerado. Ou ainda, perceba que aquilo que acreditava ser um facto era apenas uma interpretação.
Qualquer uma destas descobertas pode ser útil. Porque ter razão não deve ser o objetivo de todas as nossas decisões. Às vezes, o mais importante é estarmos disponíveis para descobrir aquilo que ainda não conseguimos ver. E é precisamente isso que a Técnica do Advogado do Diabo nos ensina: não precisamos de ter sempre alguém contra nós. Precisamos, isso sim, de aprender a não estar sempre contra as perguntas difíceis.
Se este tema lhe despertou alguma reflexão…
No meu trabalho enquanto psicóloga, acompanho pessoas que procuram compreender melhor os seus pensamentos, emoções, comportamentos e decisões, criando espaço para novas perspectivas e formas de olhar para aquilo que estão a viver.
Se este tipo de reflexão lhe interessa, convido-o/a a acompanhar o meu trabalho no Instagram em @filomenac.psicologa, onde partilho regularmente conteúdos sobre saúde mental, autoconhecimento, ansiedade, relações, desenvolvimento pessoal e gestão emocional.
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Às vezes, uma pergunta diferente não muda aquilo que estamos a viver mas pode mudar a forma como escolhemos olhar para isso.





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