E se grande parte da sua ansiedade estiver a acontecer num lugar onde, neste momento, não está?
Quantas vezes está fisicamente num lugar, mas a sua mente está noutro? Está no sofá, mas está a reviver uma conversa que teve ontem. Está numa reunião, mas está a imaginar tudo o que pode correr mal amanhã. Está a jantar com alguém de quem gosta, mas a sua cabeça está ocupada com uma situação que aconteceu há meses.
Fisicamente, está aqui. Mentalmente, pode estar muito longe.
E isto acontece-nos a todos.
O Passado vive na Memória. O Futuro vive na Imaginação
O passado já aconteceu. Não podemos voltar atrás e alterar aquilo que dissemos, fizemos ou sentimos. O futuro ainda não aconteceu. Podemos fazer planos, antecipar possibilidades e preparar-nos, mas não sabemos exatamente o que irá acontecer. Ainda assim, a nossa mente tem uma enorme capacidade para nos transportar para qualquer um destes lugares.
Podemos passar horas a pensar:
“Porque é que eu fiz aquilo?”
“E se tivesse respondido de outra maneira?”
“E se isto voltar a acontecer?”
“E se as coisas correrem mal?”
“E se eu não conseguir?”
Pensar sobre o passado pode ajudar-nos a aprender. Pensar sobre o futuro pode ajudar-nos a preparar.
O problema surge quando deixamos de visitar estes lugares e passamos a viver neles. Porque, enquanto estamos ocupados a reconstruir o que aconteceu ou a antecipar aquilo que poderá acontecer, podemos perder contacto com aquilo que está efetivamente a acontecer agora.
Porque é que temos Dificuldade em Viver no Presente?
A nossa mente procura constantemente compreender o que aconteceu e antecipar aquilo que poderá acontecer. Esta capacidade é útil. Permite-nos aprender com experiências anteriores, evitar determinados erros e preparar-nos para situações futuras. Mas, quando o pensamento se transforma numa repetição constante, pode tornar-se desgastante.
É o que acontece, por exemplo, quando passamos demasiado tempo a ruminar sobre acontecimentos passados ou quando a preocupação com o futuro ocupa grande parte do nosso dia.
A questão não é simplesmente pensar.
A questão é perceber quando pensar deixou de ser útil e passou a prendê-lo.
“Mas eu não consigo simplesmente parar de pensar.”
E não precisa. A solução para viver mais no presente não passa por tentar eliminar pensamentos, controlar permanentemente a mente ou obrigar-se a estar tranquilo.
A sua mente pensa. É isso que ela faz. O que pode aprender é a reconhecer quando está a ser levado pelos seus pensamentos.
Em vez de: “Isto vai correr mal.”
Pode começar a reparar: “Estou a ter o pensamento de que isto vai correr mal.”
Em vez de: “Eu devia ter feito diferente.”
Pode reconhecer: “Estou novamente a pensar no que aconteceu.”
Parece uma pequena diferença, mas pode ser importante. Porque deixa de estar completamente dentro do pensamento e começa a observá-lo. É como dar um pequeno passo atrás, mas para ver melhor, abrindo o ângulo da sua perspetiva.
Quando o Passado Continua a Acontecer na nossa Cabeça
Uma situação que surge frequentemente em contexto de consulta é a dificuldade em deixar para trás determinadas situações. Uma pessoa pode chegar à sessão bastante angustiada depois de algo que aconteceu dias antes. A situação já terminou, mas continua a acontecer repetidamente na sua cabeça.
Recorda o que disse, o que a outra pessoa respondeu, aquilo que poderia ter dito de forma diferente e todas as possíveis interpretações daquele momento. Quando começamos a explorar o que está a acontecer, pode surgir uma distinção importante: a situação aconteceu no passado, mas o sofrimento está a acontecer agora.
A conversa terminou. O momento passou. O que está a acontecer no presente é a recordação, a interpretação e a avaliação daquela experiência. Isto não significa que aquilo que aconteceu não tenha importância.
Significa apenas que existe uma diferença entre aquilo que aconteceu e aquilo que está a fazer com essa experiência agora. E reconhecer essa diferença pode ser o primeiro passo para recuperar algum espaço mental.

Quando o Futuro Ocupa Demasiado Espaço
O futuro também pode ocupar muito espaço na sua mente.
Outra situação frequente em consulta é a antecipação constante. Antes de uma reunião, já imaginou todas as perguntas difíceis. Antes de uma conversa, já construiu dezenas de respostas possíveis. Antes de tomar uma decisão, já percorreu mentalmente todos os cenários negativos. Muitas vezes, existe uma boa intenção por detrás disto que é tentar estar preparado. Mas existe um paradoxo:
Quanto mais tenta prever tudo aquilo que pode acontecer, mais possibilidades encontra para se preocupar. A preocupação pode dar-lhe a sensação de que está a fazer alguma coisa. Está a pensar. Está a analisar. Está a antecipar. Mas pensar repetidamente sobre uma possibilidade não significa necessariamente que esteja mais preparado para lidar com ela. Por vezes, está simplesmente a sofrer antecipadamente por algo que pode nunca acontecer.
Como Aprender a Viver mais no Presente?
Talvez possa começar de uma forma muito simples.
Parar. Respirar e perguntar: “O que está a acontecer agora?”
Não o que aconteceu ontem. Não aquilo que poderá acontecer amanhã. Agora. O que está a pensar? O que está a sentir? O que está a observar? O que está a ouvir? O que está, de facto, a acontecer à sua volta? Não precisa de encontrar uma resposta extraordinária. Talvez esteja simplesmente sentado numa cadeira. Talvez esteja a beber café. Talvez esteja a caminhar. Talvez esteja numa conversa com alguém. Talvez esteja a sentir ansiedade. E tudo isso pode ser reconhecido sem precisar de ser imediatamente alterado:
“Ah, é isto que estou a pensar.”
“É isto que estou a sentir.”
“É isto que estou a experienciar neste momento.”
Esta capacidade de observar a experiência presente sem julgamento está relacionada com aquilo que, em Psicologia, conhecemos como atenção plena ou mindfulness. Não significa esvaziar a mente. Significa desenvolver uma maior consciência sobre aquilo que está a acontecer no momento presente.

Viver no Presente Não Significa Esquecer o Passado
É importante fazer esta distinção. Viver no presente não significa deixar de aprender com o passado. Também não significa deixar de fazer planos, estabelecer objetivos ou pensar no futuro. O passado pode ensinar-nos. O futuro pode orientar-nos. Nenhum dos dois precisa de ocupar permanentemente o lugar onde está agora.
Pode olhar para trás quando precisa de compreender ou pode olhar para a frente quando precisa de planear. E pode voltar. Voltar para este momento. Porque é aqui que pode agir. É aqui que pode escolher. É aqui que pode relacionar-se com os outros. É aqui que pode cuidar de si.
E, acima de tudo, é aqui que a sua vida está realmente a acontecer.
Talvez Não Seja Preciso Controlar os Pensamentos
Talvez não consiga impedir a sua mente de viajar para o passado ou para o futuro. E talvez nem seja esse o objetivo. Pode, contudo, aprender a perceber quando ela foi para lá. Quando isso acontece, pode dizer simplesmente: “Eu percebo. A minha mente está outra vez lá. Mas, neste momento, eu estou aqui.” Esta pequena mudança de atitude pode ajudá-lo a relacionar-se de outra forma com os seus pensamentos e emoções.
Em vez de lutar constantemente contra aquilo que pensa ou sente, pode aprender a reconhecer a experiência e regressar, pouco a pouco, ao momento presente. No inicio pode parecer difícil e, sim, vai ser um pouco. Contudo, com treino vai aprender a viver o seu dia-a-dia sem esse desgaste dos seus pensamentos a invadirem a sua cabeça constantemente, porque eles vão continuar lá, só que desta vez não vão dar o enorme peso que agora está a sentir, afinal, é no presente que a sua vida acontece. E talvez, de vez em quando, precise apenas de parar e despertar para isso.
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