O Impacto Psicológico em Situação de Desemprego

No tempo em que vivemos, não podia deixar de frisar a importância que têm os impactos psicológicos causados por quem perdeu ou está em risco de perder o seu emprego.

O trabalho é fonte de sustento, acúmulo de capitais e afeta o quadro económico mundial. Mas, tão importante quanto isso, o trabalho é, também, um fator fundamental para a Psicologia.

Por esse motivo o interesse nos impactos psicológicos causados pelo desemprego vem crescendo, pois:

... o trabalho não gera apenas produtos económicos, mas gera também consequências na identidade da pessoa.

Ocorre, porém, que, para podermos falar dos impactos psicológicos que a perda do emprego causa, é necessário, antes de qualquer coisa, esclarecer a importância do trabalho para a construção da identidade da pessoa-trabalhador. Todos os estudos realizados nesta área recorrem aos modelos teóricos da psicologia social para explicar como se dá essa construção da identidade.

A imagem que a pessoa tem de si mesmo é alimentada, e mantida, pelas suas relações sociais, pela maneira como julga que os outros o veem. Assim, é no relacionamento com o outro, nas atividades sociais, que o homem se reconhece e constrói a sua identidade. Ou seja, como o trabalho é fonte constante de relacionamento social, representa uma fonte importante para a construção da identidade, e qualquer alteração na relação da pessoa com este trabalho afeta a sua identidade e a sua autoimagem.

A perda do emprego e a rutura com o trabalho afetam a maneira como a pessoa acredita ser reconhecida pelo outro. Como ela própria se reconhece, o seu sentimento passa a ser de falta de controle de si, bem como da situação e as suas relações sociais ficam alteradas, de modo a afetar a sua autoimagem, a sua identidade, causando sofrimento psíquico ao desempregado.

Por isso, muitos desempregados tentam esconder a situação em que se encontram, evitando contar sobre a perda do emprego para as pessoas das suas relações, às vezes até mesmo para a família, ainda na tentativa de manter a sua imagem.

Essa perda de controle é, também, sentida pelo desempregado como uma perda no poder de decisão sobre a condução de sua própria vida. Isto porque ele depende dos outros para prover as suas necessidades básicas, já que não tem condições financeiras para isso.

Assim, quando a pessoa perde o seu emprego, o seu papel de trabalhador afeta os seus outros papéis, afetando a sua relação com as outras pessoas. Quanto mais central for esse papel na vida, mais traumática será a perda de emprego.

A transformação da identidade tornasse necessária quando se perde o emprego, a pessoa necessita de aprender a ampliar os seus limites e o seu potencial. Apesar desse processo de reconstrução da identidade ser doloroso e dotado de sofrimento, traz um enriquecimento psíquico, pois surge a possibilidade de resgate de valores e crenças que foram perdidos ao longo da vida profissional. Assim, a pessoa constrói uma nova identidade, mais autêntica.

O Ciclo de Respostas da Pessoa ao Desemprego

Os diferentes estudos, mostram que o desempregado vai manifestando diferentes reações ao longo do período de desemprego, desde o recebimento da notícia do desemprego até uma recolocação.

Num primeiro momento, a pessoa fica em estado de choque ao receber a notícia do desemprego, e não consegue planear o seu futuro. Essa fase é acompanhada por sentimentos e pensamentos que tendem a minimizar a nova realidade que traz e exige certas mudanças, como o otimismo e a crença de que a pessoa  rapidamente encontrará um novo emprego, mesmo em tempos de elevados níveis de desemprego. Com o passar do tempo, a dificuldade de encontrar um novo emprego, e sua nova situação económica (prejudicada), leva-a a encarar a sua nova realidade e entrar em depressão.

Nesse momento, o otimismo transforma-se em pessimismo, acarretando consigo ansiedade e sofrimento psicológico. Sem saída, a pessoa começa a testar novos comportamentos e atitudes perante a sua situação e vai construindo uma nova perceção de si, do mundo, construindo uma nova identidade. No final desse caminho está a recolocação, que alivia o sofrimento, ou mesmo um desenlace traumático. Em casos mais graves, o desemprego pode gerar um processo psicopatológico.

No momento de crise, a pessoa sofre o impacto da perda de emprego e, apesar de tentar procurar alternativas, acaba sentindo-se insegura e por isso, surgem a irritabilidade, a insónia, as oscilações de humor e a angústia.

Na transição surgem sentimentos de culpa, desânimo e tristeza. É nessa fase que começa a ocorrer um isolamento social por parte do desempregado.

Na fase de adaptação, a pessoa culpa-se definitivamente e isola-se ainda mais. Nesse momento começam a surgir sintomas psicopatológicos, como uma forma de evasão (drogas, alcoolismo, hipocondria, psicossomatização, etc.).

No ajustamento ocorre a deterioração da autoimagem e uma atitude fatalista. Nesse momento, surge o embotamento afetivo, no qual a pessoa não expressa nenhum tipo de sentimento.

Para manter um equilíbrio psicológico e o seu autoconceito, o ser humano resiste às mudanças que possam alterá-los. Por isso, nas fases iniciais do desemprego, a pessoa tende a minimizar a situação evitando encarar a nova realidade. Há casos em que as pessoas saem de férias após perder o emprego, tentando manter o seu controle e não encarar as mudanças necessárias. Em outros casos, existe apenas a sensação de estar de férias.

Outras formas de “defesa” para não encarar a realidade são: adiar o recebimento dos benefícios, gastar dinheiro para “mostrar” que a situação é temporária e não deverão ocorrer mudanças significativas na sua situação financeira.

Ao perceber a difícil realidade, como já havíamos mencionado, o otimismo inicial da pessoa transforma-se a médio prazo, em pessimismo e depressão. Esta situação começa a afetar a sua procura por emprego, pois acredita que a sua oportunidade para ser recolocada é escassa ou nula. A pessoa deixa de se preparar para as entrevistas do mesmo modo, e até a sua aparência física pode prejudicá-la, pois por norma começa a existir um certo desleixo com a sua própria imagem visual.

Assim, como podemos perceber, o desemprego traz consequências psicológicas, mas é interessante mencionar que o contrário também pode ocorrer, ou seja, os problemas psicológicos podem também causar o desemprego. Isto pode ocorrer, pois os problemas psicológicos (como a ansiedade, a insegurança, a agressividade, entre outros) afetam o comportamento da pessoa, prejudicando-a nas relações existentes no seu contexto de trabalho, assim como também influenciar de forma negativa a sua eficiência no desempenho das suas tarefas.

A Ansiedade, depressão, alterações do sono, perturbações alimentares são alguns dos impactos psicológicos causados em situações de desemprego.

Mudança de Hábitos

Entre as alternativas de sobrevivência, a mudança de hábitos de consumos domésticos é muito importante para a economia financeira da família de um desempregado.

A pessoa desempregada sente necessidade de tomar decisões transitórias visando obter resultados rápidos e eficazes para a sua situação, permitindo desfrutar de mais tempo para definir as atitudes que deverá tomar para recuperar o controle da situação. O caráter provisório, porém, dessas estratégias causa altos níveis de ansiedade, influindo negativamente na produtividade.

A Importância do Campo de Psicologia

No campo da psicologia, o desemprego é visto como um fenómeno psicossocial, transcendendo o âmbito económico e afetando o trabalhador na esfera social e psicológica. Desta forma, os psicólogos devem atuar não apenas no ambiente clínico, através de intervenções psicoterapêuticas, mas, também, realizando intervenções psicossociais que ofereçam apoio psicológico e suporte social às pessoas desempregados, trabalhando coletivamente, trocando entre si experiências, sentimentos e comportamentos originários da situação de desemprego.

Através desse tipo de intervenção, a pessoa passa a reconhecer as dimensões social e psicológicas do trabalho, revendo permanentemente a sua vivência com o desemprego, conseguindo assim adquirir uma autonomia maior para encarar a situação e procurar soluções para resolvê-la.

Esta atuação permite uma diminuição do sofrimento psíquico, gerado pelas consequências económicas, sociais e psicológicas, causadas pela perda do emprego. Este enfrentamento permite conhecer, e utilizar novas maneiras de ser, pensar e sentir, e consolida a ideia de que a psicologia tem compromissos sociais, políticos e éticos e por isso os seus profissionais devem contribuir para a construção de modelos alternativos, para a recolocação desses trabalhadores desempregados no mercado de trabalho.

Retirado e adaptado de: Chahad, C. & Chahad, J. (2005). The Unemployment psychological impacts on the labor market equilibrium. Revista da ABET, V.V, nrº 1, jan/jun, pp. 179-2018.

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