A dor do divórcio aos 30, 40 ou 50 anos não é apenas pela perda do(a) parceiro(a), mas pela perda da rotina. Margarida, partilhou muito angustiada em contexto de consulta que deu por si a chorar no supermercado porque, por hábito, colocou no carrinho das compras os iogurtes favoritos do seu ex-marido. Este “reflexo condicionado” é o que torna o impacto emocional tão persistente. Não se trata apenas de grandes dramas, mas do silêncio ao jantar ou da cama que parece grande demais. Estas pequenas crises são normais. O cérebro precisa de tempo para “desaprender” o outro. É um processo biológico de desapego que requer paciência e muita autocompaixão consigo próprio.
E quando o divórcio se dá por decisão mútua do casal? Há muitos casais que são excelentes amigos, mas que se transformam em péssimos amantes.
Familiares e Amigos: Como lidar?
Muitas vezes, a família (especialmente os sogros) ou amigos em comum sentem que têm de “existir um vencedor”. Por vezes, esta pressão é muito difícil gerir e costuma ser um tema muito presente nas sessões, quando há a sensação de que tem de existir sempre um vilão ou vilã da história. Às vezes é mais fácil justificar quando houve uma traição de uma das partes, do que quando foi apenas por deixar de fazer sentido seguir a união.
Numa das muitas sessões que tive com o João, este partilhava que ele e a sua ex-mulher Clara tinham um grupo de amigos, quase todos casais, com quem viajavam há quase 15 anos desde a juventude. Após o divórcio, o João parou, ou seja, começou a perceber-se que deixou de ser convidado para os convívios, principalmente jantares, porque os amigos “não sabiam como agir” ou temiam que a presença dele deixasse a Clara desconfortável. Durante muito tempo, nas sessões, a dúvida do João era se devia ser ele a puxar o tema com os amigos com quem ia várias vezes beber café, um grupo mais restrito.
Certo dia, o João sabia que para se sentir bem com ele próprio, precisava (urgentemente) de abordar o tema “tabu” com os amigos. Afinal de contas, quem estava a lidar mal com o divórcio não era ele, nem a Clara, mas os amigos em comum que se sentiam desconfortáveis e sem saber como agir na presença dos dois após o seu divórcio.
Para lidar com uma situação destas é importante antecipar o desconforto. Seja direto com os seus amigos próximos: “Eu sei que isto é estranho para vocês, mas valorizo a vossa amizade independentemente do que aconteceu no meu casamento” por exemplo. Se a família tentar alimentar o conflito, simplesmente diga “Agradeço a preocupação, mas decidi não discutir os detalhes da separação. Espero o vosso apoio”.

Falar com os Filhos: A Diferença de Idade
É certo que a conversa muda radicalmente conforme a maturidade dos filhos, mas o impacto emocional é transversal. Quando os pais decidem divorciar-se há sempre um sentido de culpa sobre o impacto que vai ter nas crianças. É importante perceber o lado delas.
Há crianças que estão desejosas que os pais tomem essa decisão, porque não aguentam mais os conflitos diários em casa. Na consulta com os adolescentes, quando é claro, esta situação para eles é mais simples de aceitar do que para os adultos. Principalmente, se existirem conflitos diários que impactam na vida do jovem. Quando falamos de crianças mais pequenas, dependendo naturalmente da sua maturidade, o comportamento destes e a aceitação de uma nova realidade, podem ser diferentes, pois tendem a sentir-se culpados ou a tentar mediar a situação dos pais.
Lembro-me, por exemplo, do pequeno Duarte de 9 anos, que começou a manifestar comportamentos disruptivos na escola, numa tentativa consciente de tentar “unir” os pais na preocupação com ele. É vital trabalhar estas questões com as crianças, dando-lhes todo o espaço para serem ouvidas, principalmente, as suas preocupações e dúvidas, fazendo-as compreender que este é um assunto que só os pais podem resolver entre eles, dando espaço para a criança continuar a ser ela própria.
Com filhos adultos: Há o risco da “triangulação”, onde o pai ou a mãe desabafam detalhes íntimos ou financeiros. Há uma forte tendência para confundir a relação de mãe-filha, para amiga-amiga. É preciso não confundir os papeis.
Aos 23 anos, a Sofia chegou até mim porque já não suportava ouvir a mãe a queixar-se da dificuldade que tinha para comunicar com o ex-marido, o seu pai, sobre a partilha dos bens. Isto criou um conflito de lealdade insuportável para a Sofia, porque não queria saber dessas questões, só queria estar concentrada na faculdade e poder desfrutar dos momentos que passava com o pai e a irmã mais nova (fruto da segunda relação do pai) aos fins de semana ou férias, quando não tinha de estudar. Deixo uma regra de ouro: O seu ex-cônjuge, mesmo que não queira, continuará a ser o pai/mãe deles para sempre. Não destrua essa imagem, pois só vai ter mais a perder do que a ganhar.

Aceitar e Seguir: A Redescoberta da Identidade
Muitas pessoas sentem que “já não sabem quem são” sozinhas. Depois de anos passados a viver no seio da família, com o seu cônjuge e filhos é normal que sinta dificuldade em reencontrar-se, mesmo que isso tenha sido o motivo que o levou a pedir o divórcio. Numa nova dinâmica que causa um certo incômodo pela positiva, há que encontrar formas de se reinventar!
O Carlos, divorciado aos 52 anos, ao comprar um sofá de uma cor que a sua ex-mulher detestaria, sentiu uma estranha, mas libertadora sensação de posse sobre a sua própria vida. Ao discutirmos essa sua sensação durante a sessão, o Carlos chegou à conclusão que nunca lhe era dado “voto na matéria”, ou era acusado por «não abrir a boca» ou era acusado por escolher sempre «coisas feias». Nunca sentiu que a sua opinião contasse e, por isso, aos poucos, começou a sentir-se sem vontade para se esforçar para participar ativamente. Com este pequeno gesto (escolher a cor do sofá ao seu gosto para o seu apartamento), foi para si uma novidade, sentiu controlo sobre a sua vida que há muito deixou de sentir. Parece um detalhe muito pequeno, mas tem um enorme significado para quem passa por uma situação similar.
Seguir em frente não é “esquecer”, é integrar a experiência. É o momento de trocar o “nós fazíamos” pelo “eu quero fazer”. Isto pode passar por:
- Mudar a zona onde morava.
- Marcar uma viagem sem destino.
- Retomar aquele curso de fotografia ou de línguas que ficou na gaveta.
- Fazer uma tatuagem.
- Aprender que a solidão não é o mesmo que solitude (o prazer de estar na própria companhia).
Um Pequeno Exercício de Reflexão
O processo de divórcio implica várias fases e é vivido de formas diferentes e a ritmos diferentes por cada pessoa, com mais ou menos sofrimento.
Se estiver a passar por isto agora, tente responder a esta pergunta: “O que é que eu sempre quis fazer, mas sentia que não tinha espaço ou apoio na minha relação anterior?” A resposta a essa pergunta é o seu primeiro passo em direção ao novo capítulo. O divórcio é o fim de um contrato, não o fim da sua capacidade de ser feliz.
Neste processo de redescoberta, qual sente ser o maior obstáculo atual: lidar com o passado que ficou para trás ou o medo da incerteza sobre o que vem a seguir?
Saiba que é mesmo possível passar por este processo de forma saudável e bem-sucedida. Com calma, com autocompaixão, investindo em atividades de lazer, cultivar novas relações, com o apoio certo das pessoas que o(a) amam.
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