Os Adolescentes Não Pensam Bem nas Coisas… Ou os Adultos é Que Têm Dificuldade em Percebê-los?

Muitos pais não entendem o porquê dos filhos às vezes se comportam de maneira impulsiva, irracional ou perigosa. Às vezes, parece que os adolescentes não pensam bem nas coisas ou simplesmente, não consideram totalmente as consequências das suas ações.

Os adolescentes parecem sempre estar, e querer estar, no seu mundo, parecem alienados ao mundo que os rodeia e muitas vezes, sentem-se injustiçados por não compreenderem as decisões dos pais. Mas será mesmo verdade? Será que os filhos adolescentes não entendem porque não querem ou, por outro, não o conseguem fazer ,simplesmente porque ainda não têm as suas estruturas cerebrais preparadas para assumir tal pressão?

Os adolescentes diferem dos adultos na maneira como se comportam, resolvem problemas e tomam decisões. Até aqui nada de novo… Porém, é preciso ter consciência que existe uma explicação biológica para essa diferença. Os estudos demostraram que o cérebro continua a amadurecer e se desenvolve ao longo da infância e adolescência e até, ao início da idade adulta. Por isso, deveria ser fácil, para nós adultos, compreendermos que o nosso filho adolescente não vai ser capaz de assumir uma maturidade tão elevada como as nossas expectativas…,mas por vezes, ainda somos surpreendidos!

A região específica do cérebro chamada amígdala, é responsável por reações imediatas, incluindo a resposta ao medo e comportamento agressivo. Esta região desenvolve-se cedo, no entanto, o córtex frontal, a área do cérebro que controla o raciocínio e nos ajuda a pensar antes de agirmos (capacidade de planeamento e tomada de decisão) desenvolve-se mais tarde. Essa parte do cérebro ainda está em mutação até à idade adulta.

Os relatos de imaturidade nos adolescentes podem ser classificados em duas categorias amplas: aqueles atribuídos a diferenças cognitivas entre adolescentes e adultos (ou seja, diferenças na maneira de pensar) e aqueles atribuídos a diferenças psicossociais (ou seja, diferenças na sua maturidade social e emocional).  

Com base no estágio de desenvolvimento do cérebro, os adolescentes são mais propensos a:

– Agir por impulso;

– Interpretar mal ou interpretar mal dicas sociais e emoções;

– Entrar em acidentes de todos os tipos;

– Envolver-se em brigas/conflitos;

– Envolver-se em comportamentos perigosos ou arriscados.

Os adolescentes têm menos probabilidade de:

– Pensar antes de agirem;

– Fazer uma pausa para considerar as consequências das suas ações (ponderação);

– Mudar os seus comportamentos perigosos ou inadequados.

“Na busca que os adolescentes fazem de uma identidade e de um lugar próprio entre os demais, eles são muitas vezes caracterizados como estando, permanentemente, numa atitude de desafio perante a autoridade, seja ela personificada pelos progenitores, pelos professores, pelas próprias figuras representantes da autoridade ou, mesmo, pelos seus pares” Oliveira, M. e Pais, L. (2016).

O que Significa Ser “Maduro” ?

Devemos levantar questões sobre o que significa ser psicossocialmente “maduro”, se a maturidade psicossocial está de fato relacionada com o julgamento ou tomada de decisão, e se as diferenças observadas na maturidade psicossocial entre adolescentes e adultos (ou entre adolescentes de diferentes idades) são suficientes para servir de base para traçar distinções entre esses grupos de idade.

Os julgamentos maduros são o produto de uma interação entre fatores cognitivos e psicossociais. Uma pessoa que enfrenta uma decisão específica pode ter as aptidões cognitivas para avaliar os custos e benefícios das suas ações, mas se a pessoa for especialmente impulsiva, pode não tomar uma decisão mais correta. Da mesma forma, mesmo a pessoa mais responsável e moderada pode não tomar decisões competentes, se não dispor das aptidões cognitivas necessárias ou o acesso a informações relevantes.

Por exemplo, em 1974,  Greenberger Sorensen definia a maturidade como “a capacidade de funcionar por conta própria, de contribuir para a coesão social e de interagir de forma adequada”.

É preciso então ter cuidado, quando afirmamos que aquele jovem adolescente é suficientemente maduro para tomar uma decisão, para fazer uma escolha consciente. A pressão que os adolescentes sentem quando colocados neste tipo de situações é enorme! A sensação é que têm o mundo às costas, outros, porém simplesmente aceitam sem questionar se uma determinação ação é correta ou não, agem através da tal impulsividade utilizando como recurso a nossa resposta mais primitiva do sistema nervoso central, isto é, sem a capacidade de julgamento, agem por “instinto”.

Independência: Sim ou Não?

Durante a segunda década de vida, as pessoas tornam-se mais capazes de tomar decisões independentes, passam a ser menos facilmente influenciados pelos conselhos ou solicitações de outros e mais capazes de funcionar de forma responsável na ausência da supervisão de um adulto.

Não é por isso difícil de compreender que quanto mais idade, mais as estruturas cerebrais amadurecem, logo maior capacidade de autonomia responsável. No entanto, é preciso sublinhar que a independência não é assim tão linear. Um jovem que sempre teve a ajuda direta dos pais para resolver problemas de vida diária, é natural que demonstre maior dificuldade na hora de “se ser independente”, simplesmente pelo fato de não ter existido tempo e espaço para o treino supervisionado dos pais.

Em diversos estudos, os pais foram considerados mais influentes em questões de religião, planos educacionais, escolha ocupacional ou outras questões “profundas”, enquanto os colegas/amigos foram considerados mais influentes nos assuntos do dia-a-dia, como o gosto por determinadas roupas, música , etc.

A suscetibilidade à influência dos pais segue uma certa tendência, à medida que a idade avança e que a maturidade vai-se consolidando, os jovens tornam-se menos facilmente influenciados pelos pais.

Quando É que Entra o Treino Supervisionado?

Quanto mais cedo melhor, mas é preciso fazê-lo gradualmente e sem pressas. O treino supervisionado, não é nada mais do que dar a possibilidade a um adolescente de ir assumindo gradualmente alguma responsabilidade pelas suas coisas materiais e pelas suas ações/comportamentos.

Para além da inclusão da sua participação das tarefas de vida doméstica (e aqui podem ser dados vários exemplos, desde fazer a cama, pôr a mesa para a refeição, levar o lixo, colocar e ligar a loiça da máquina ou passear o cão). Podem e devem ser incluídas outras responsabilidades, como por exemplo a gestão da sua semanada e posteriormente, a gestão da sua mesada. A gestão do dinheiro é uma boa maneira de iniciar responsabilidades que vão para além da vida doméstica e das tarefas pouco atrativas.

É necessário que seja dado ao adolescente espaço para errar. Sem o erro, não há hipótese de aprender. É preciso deixar que ele decida para que se ajude a ajustar “a vela para onde sopra o vento”. A ajuda do adulto, não significa fazer por ele ou criticá-lo, significa estar disponível para com ele fazer um caminho de descoberta, mesmo com erros, mesmo com avanços e recuos.

Estimular a sinceridade e a transparência das emoções, não é o mesmo que tornar o adolescente o melhor amigo do pai ou da mãe. É, pelo contrário, assumir a parentalidade com toda a alegria e energia que um filho pode transmitir. É ensinar as crianças a poderem transmitir por palavras as suas emoções, para que já em adolescentes se sintam mais livres para expressarem o que sentem, sem que se sintam julgados.

Nós adultos, podemos ter muita dificuldade em aceitar ou compreender as reações dos adolescentes, mas devemos tratá-los sempre como tal, nem mais nem menos, só assim poderão tornar-se jovens adultos mais seguros de si.

Não é em vão que a adolescência é um período de vida tão particular, costuma dizer-se que eles (os miúdos) não são novos o suficiente para serem tratados como crianças, mas também não são adultos o suficiente para serem “obrigados” a assumir responsabilidades e competências que não compreendem. Por isso é tão difícil manter o equilibro na forma como nos relacionamos com eles: por vezes parecem bebes grandes e veem para o nosso colo lamentar-se por outro, assumem uma postura corporal forte e de homenzinhos. Mas não são de todo, nem uma coisa nem outra!

Fonte: American Academy of Child and Adolescent Psychiatry (2016). Teen Brain: Behavior, Problem Solving, and Decision Making.

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