Como Nos Tornámos Nômadas na Nossa Própria Casa

Cada um de nós está habituado a ouvir e a dizer algumas desculpas para nos “livrarmos” de algum encontro, tarefa ou situação que nos possa deixar desconfortáveis. Há quem seja muito bom a usar desculpas e há quem prefira não dizer nada à última da hora. Mas há ainda quem se “mate” para inventar uma boa desculpa.

Escusado será perder muito tempo na tese “desculpas não se pedem, evitam-se” mas será assim tão fácil?

Algumas desculpas são autênticas artimanhas criadas pela nossa própria mente, porque não gostamos de determinada pessoa, somos capazes de inventar uma má disposição à última da hora para não ir àquele jantar e isso não é mau de todo. Coisas dessas acontecem, o problema é quando “essas coisas” começam a fazer parte da normalidade, do nosso modus operandi (modo de operação, maneira de agir).

Hoje inventamos que não nos sentimos bem, que comemos algo que caiu mal, na próxima vez dizemos que tivemos um problema no carro e essa sequência de desculpas vai ganhando alguma forma, mas também poder, sem que (provavelmente) dêmos conta disso.

Normalmente, quem começa por levantar o véu são os amigos e familiares. Questionam porque começamos a falhar a encontros e a ter dificuldade em atender o telefone. Até que se instala uma grande vala entre a vontade de sair e estar com pessoas.

Tolerar outras pessoas é um processo complexo e exige não só a própria exposição, mas igualmente, a exposição dos outros a nós.

Com toda esta questão pandêmica ainda em evidência, muitos de nós deixaram as suas rotinas sociais para trás e começaram a assumir outras posturas, umas fruto do medo de contrair o vírus, outras baseadas na procrastinação. Não nos podemos esquecer que foram muitas as pessoas que fizeram uma alteração das suas rotinas em 180° e tornaram-se nômadas na sua própria casa.

Essa alteração brusca e a forte pressão para o confinamento deixou-nos a todos muito abalados e mais aqueles que em certa parte, já se encontravam a superar alguns dos seus fantasmas. Uns acabaram por regredir até ao ponto de deixar-se levar ainda hoje pela melancolia do confinamento.

Por ora, outros, deram uma reviravolta no sentido oposto, redescobriram novas formas de pensar, de se autocriticar e de exigir do mundo.

Os dois lados são sem dúvida controversos, mas não são assim tão diferentes. Se por um lado, nos aninhámos no sofá, por outro fizemos do sofá, da sala e muitas vezes até da cozinha em zonas de ativação plena. Há quem tenha transformado a sua varanda num ginásio e quem tenha transformado a sala no escritório do pai, na zona de rececionista da mãe e na sala de aula dos filhos, tudo num só lugar, não é fantástico? Talvez (claro que não!) não tenha sido assim tão agradável, mas foi sem dúvida o possível.

Homem a trabalhar na sua cozinha

Não há dúvida…se há coisas que tanto tememos, no que toca a nossa formatação genética podemos ficar descansados, a nossa capacidade de adaptação é fenomenal. Pese embora, ela nem sempre seja fácil, nem simples. O mesmo não é dizer que aceitámos de bom tom a mudança, pois é da nossa natureza sermos resistentes a ela. Se não, vejamos. Enquanto nos foi dito que era necessário, por um tempo, fazermos este esforço brutal de confinamento, fomos fazendo sempre na incerteza e lutando contra as dúvidas relativas ao futuro, porem mesmo assim, a maioria foi cumprindo. Mas não nos convencemos que esta seria a nossa nova realidade a nossa nova rotina “para sempre” e assim, ao mínimo sinal de descompressão, as pessoas voltaram a reunir-se. E ainda bem.

Só que, no meio de toda este turbilhão de pessoas e ideias partilhadas, muitos outros se mantêm até hoje, mais confinados nos seus pensamentos, mais confinados nas suas ideias e menos despertos para o outro.

Não nos podemos esquecer que somos seres sociais por natureza, precisamos do outro para nos construirmos. Apesar de nascermos com o temperamento definido, a nossa personalidade só é formada através da interação com o meio, o que inclui dizer que depende das interações com outras pessoas, outros lugares, outras ideias e por aí fora.

Embora para mim, já fosse uma prática regular, também na minha profissão houve um impacto significativo tendo-me obrigado a utilizar muito mais as consultas à distância em prol da proteção e bem-estar de todos nós. Portanto, no meu caso, sim, também me tornei uma espécie de nômada na minha própria casa,  por vezes a minha sala também se transformou no meu consultório, no meu espaço de trabalho e na minha zona de criação.

No entanto, não posso deixar de sublinhar uma ideia: não nos deixemos cair no buraco negro da solidão e da apatia emocional. Apesar do distanciamento social e o necessário cumprimento das regras e orientações da DGS, não podemos deixar de viver. Isso seria, deixar de ser quem somos para passarmos a ser alguém que não queremos ser.

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