As Raízes do Tédio Crônico e Doloroso: Por que Entender as Emoções Traz Alívio

Muitas pessoas lutam com o tédio crônico. Mas o que exatamente é o tédio e quais são algumas maneiras de ir além?

A wikipedia descreve o tédio como “um estado emocional e, ocasionalmente, psicológico, vivenciado quando um indivíduo fica sem nada em particular para fazer, não está interessado ou sente que um dia ou período é monótono ou tedioso”. Nós todos sabemos o sentimento. Isto é, faz parte da vida. Mas, às vezes, é um sintoma de algo mais profundo que precisa ser tratado.

O termo tédio é muitas vezes substituído pelo conceito de procrastinação, “Procrastinar é o comportamento de se adiar tarefas, de se transferir atividades para “o dia seguinte”, deixar de fazer algo ou até interromper o que deveria ser concluído dentro de um prazo determinado (Kerbauy, 1997). Para a pessoa que está a procrastinar, isso resulta em ansiedade, sensação de culpa, perda de produtividade e vergonha em relação aos outros, por não cumprir com as suas responsabilidades e compromissos. Embora a procrastinação seja considerada normal, pode tornar-se um problema quando impede o funcionamento normal do indivíduo no seu dia-a-dia. A procrastinação crónica pode ser um sinal de dificuldades a nível psicológico” (A Mente É Maravilhosa, Sara Guelha, 2013)

O que causa o tédio crônico?

Na minha prática de psicoterapia, vejo algumas causas principais para estados crônicos de tédio:

1 – O tédio que funciona como uma defesa protetora contra a dor emocional.

As experiências traumáticas e adversas na infância, como serem criadas numa casa caótica, fazem a criança se sentir insegura. A falta de segurança desencadeia emoções esmagadoras e conflituantes, como raiva e medo.

Para lidar sozinha, a mente de uma criança compartimenta sentimentos “menos bons” para continuar com a vida. Mas desconectar-se das emoções, por mais que nos poupe dor, também pode se manifestar como tédio. O tédio, nesse caso, é um subproduto da falta de contato com as emoções principais, como tristeza, raiva, medo, nojo, alegria, excitação e excitação sexual. Quando perdemos o acesso às nossas emoções principais, cortamos uma fonte vital de energia que nos faz sentir vivos. Para curar, precisamos reconectar-nos com o nosso vasto mundo emocional através do corpo.

2 – O tédio, que funciona como um sinal de que somos subestimulados.

Nesse caso, o sentimento de tédio diz-nos sobre uma necessidade subjacente de encontrar interesses e novidades na nossa vida. Para superar o tédio, precisamos descobrir quaisquer obstáculos que atrapalhem a nossa maneira de encontrar novos interesses.

3 – O tédio também interrompe o acesso a conhecer os nossos verdadeiros desejos e necessidades.

Estar em contato com desejos e necessidades, especialmente quando pensamos que eles são inatingíveis, é sentir dor na mente e no corpo.

4 – Para algumas pessoas, o tédio decorre de uma combinação de todos os itens anteriores e também pode ser reconhecido como procrastinação ou desengajamento (ato ou efeito de desengajar, de perder ligação).

É particularmente angustiante, porque uma pessoa pode querer concentrar-se, mas não pode, pois não consegue. Em vez disso, sentimos uma mistura miserável de tédio e ansiedade, sem escapatória, porque é impossível envolver-nos numa atividade devido à incapacidade para nos concentrarmos numa tarefa.

Procrastinação pode matar a vontade de viver

O exemplo da Raquel

A Raquel cresceu numa casa caótica. Quando a conheci quando jovem, ela não parecia importar-se muito com nada, terminando quase todas as frases com “… tanto faz …” e revirando os olhos. Esse tipo de defesa “não me importo” protegia a Raquel do desconforto emocional. Mas também a desconectou da energia e vitalidade que a vida emocional traz. Ela foi atormentada pelo tédio, um sentimento que descreveu como morte, que só foi aliviada quando ela começou a ingerir grandes quantidades de vinho.

Para a Raquel se sentir melhor, tivemos que entender o objetivo protetor do tédio. Na psicoterapia, convidamos os clientes a visualizar partes de si mesmos que possuem crenças e emoções angustiantes, para que possamos ajudá-los a transformarem-se.

Um dia, numa das sessões coloquei a seguinte questão à Raquel: “Raquel consegue imaginar a parte de si que se sente entediada sentada no sofá ao seu lado?”.  A Raquel conseguia imaginar a parte entediada dela. Ela viu através dos seus olhos adultos a imagem de uma menina de doze anos, vestida com roupas góticas, sentada no sofá do meu gabinete.

Por todo o coração e sem julgamento, acolhendo partes de nós que experimentam o tédio, aprendemos o propósito que o tédio serve e o que realmente precisamos. Quase sempre, as emoções do passado precisam ser validadas, honradas e sentidas no corpo até que se movam completamente. À medida que uma pessoa se recupera de traumas e feridas passadas, defesas como o tédio deixam de ser necessárias.

A vitalidade e o entusiasmo de Raquel pela vida surgiram enquanto ela processava a raiva sentida pelos dos seus pais e lamentava para si mesma pela dor que experimentou na sua infância. Ela passou a compreender como “não se importar” a impedia de ser magoada e dececionada com a vida. Ela aprendeu que agora era forte o suficiente e apoiada o suficiente para lidar com os desafios da vida e as emoções que desencadeavam. A Raquel passou a debruçar-se sobre as formas mais adaptativas de lidar, como ouvir as suas emoções e, em seguida, pensar na melhor forma de satisfazer as suas necessidades e assim, resolver os problemas de maneira proativa. Através desse trabalho, ao longo do tempo, foi deixando cada vez mais de se deixar entediar passando a assumir um maior controlo sobre todas as vertentes da sua vida.

O tempo é precioso, mas a sua qualidade depende do que decidimos fazer com ele.

Alívio pela conscientização

O tédio é uma experiência difícil. Mas não é preciso ficar preso nesse estado. Com uma postura de curiosidade e compaixão, podemos aprender as raízes do tédio. Quando o tédio nos diz que precisamos de mais interesses, podemos definir um plano para experimentar novas experiências, praticando paciência connosco até encontrar o equilíbrio adequado entre novidade e familiaridade.

Se estivermos entediados porque estamos a defender-nos contra emoções e necessidades mais profundas, podemos descobrir absolutamente essas emoções e necessidades, honrá-las e pensar em como enfrentá-las de maneira segura e saudável. Dessa maneira, nos reconetamos ao nosso Eu vital e mais autêntico. Se o tédio é misturado com uma ansiedade esgotante, devemos inclinar-nos para essa ansiedade com a ajuda de um psicoterapeuta qualificado para compreender a causa e encontrar a cura. Se não o fizermos, provavelmente escaparemos do tormento com rotas de fuga autodestrutivas, como drogas e álcool por exemplo.

Pratique exercícios para ultrapassar o tédio

Deseja experimentar conversar com a sua parte entediada? Faça a si mesmo estas perguntas:


• Esse tédio é antigo ou é uma experiência relativamente nova?
• Quando foi a primeira vez que se lembra de estar entediado de tal maneira que não aguentou?
• Como o tédio o afeta fisicamente?
• Qual é a parte mais difícil da experiência do tédio: O assalto à autoestima? O autojulgamento? Os pensamentos negativos que isso causa? De outros?
• Quais são os impulsos, se houver algum, das partes entediadas de si?
• O sentimento de tédio está sempre presente ou vem e vai?
• O que provoca o tédio e o que o faz desaparecer?
• Por que o tédio é um problema para si? Seja muito específico sobre como o tédio o afeta.
• O que a sua parte entediada precisa para se sentir melhor?

Retirado e adaptado de The Roots of Chronic and Painful Boredom e Procrastinação.

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