O Luto Não é uma Doença, Mas Pode-nos deixar ‘Doentes’ Quando Perdemos um Filho

Quando pensamos em luto, pensamos na morte, na perda de uma vida e isso faz-nos imaginar como seria perder alguém de quem gostamos.

Em perdas imprevisíveis o nosso mundo parece desmoronar ainda mais, puxam-nos o tapete e caímos desamparados e desorganizados. Muitos de nós parecem nunca se quer encontrar esse poço fundo, a dor instala-se tão profundamente nos nossos pensamentos, as emoções são todas elas tão intensas que de repente, quase sem darmos conta, deixamos de ser capazes de as sentir por serem tão fortes.

Quando se perde um filho, nunca se está preparado. Mesmo em situações mais previsíveis, existe sempre algo que nos faz acreditar na manutenção da sua vida junto de nós. Por isso, imaginar perder um filho de forma súbita e precoce, faz-nos colocar em causa a ordem correta da vida: ‘primeiro os pais e só depois os filhos já criados e crescidos’, mas não.

Inevitavelmente, todos os pais com quem estive em consulta fizeram descrições idênticas: uma experiência de dor profunda, avassaladora, sem explicação com que se tem de viver. Referem que numa fase inicial foi como se tivessem eles próprios “morrido” para o mundo, a vida parece deixar de fazer qualquer sentido, a sua ausência arrasa o raciocínio e todos contam como é arrancada á força uma parte de si, conscientes que nunca mais a sua realidade voltará ao que era antes.

Superar o luto, não é esquecer, não é somente deixar o passado para trás e fazer a vida seguir. É sim, encontrar um novo papel que faça sentido. Uma coisa é certa, nunca se volta à forma original, porém é possível recuperar e sobreviver, isto é, reaprender a viver a vida de uma forma nunca antes experienciada. Mesmo no caso em que os pais já haviam experienciado perdas anteriores de entes queridos, todos eles referem que o luto é sentido de forma diferente, mais intensa e muito mais difícil de gerir.

Processo de luto

O processo de luto em si mesmo por norma, é descrito como a vivência de sentimentos de apatia e abatimento, diminuição de atividades o que leva à quebra de rotinas essenciais como o lazer, quebra na atenção, na concentração e na memória. Ocorrem por vezes sonhos evasivos e um forte desinteresse pelo mundo exterior.

Tal como indicámos, sendo um processo implica um conjunto de etapas ou fases. Bowlby por exemplo, considera que o luto é feito em quatro fases: 1) dormência, 2) busca e saudade, 3) desorganização e desespero, 4) reorganização. O objetivo ultimo será sempre uma fase de estabilidade emocional, cognitiva e comportamental que permita à pessoa, neste caso aos pais sobreviver e aprender a reencontrar o seu papel na sociedade, enquanto parceiro e no seio da família.

O luto pode ser vivido com intensidade e duração diferente consoante a forma como cada pessoa o assimila. Aqui entram as questões da personalidade, do tipo de relação, a predisposição genética e possíveis vulnerabilidades, idade, cultura, perdas recentes, recursos sociais e o tipo de morte.

O luto não é uma doença

Apesar de nos sentirmos doentes quando vivenciamos o luto, não estamos doentes e isso resulta do complexo sistema de crenças interno. Apesar de reações bastante emotivas a maioria das pessoas não chega a necessitar de ajuda profissional para se restabelecer, contudo existem casos especiais que necessitam de um olhar atento.

Quando dizemos que o luto não é uma doença, não é o mesmo de considerar que ele faz parte do processo de viver, pois faz, mas sim no sentido de clarificar o que é um luto natural e um luto não natural que exige uma intervenção e um cuidado diferente.

Entende-se por luto normal/natural quando a pessoa é capaz de adaptar-se, compreender e expressar a dor e assim, encontrar estratégias adequadas de ajustamento à nova realidade. Este ajustamento implicará a capacidade de estabelecer novos laços e relações.

Um luto prolongado em que a pessoa continua a fugir ao tema, à dor e tenta constantemente transparecer que está tudo “controlado”. Em que se observa um impacto significativo na área social e profissional, é definido como um luto patológico e portanto disruptivo, necessita de atenção e de uma possível intervenção terapêutica.

Viver a morte de um filho

Os pais que vivem a morte de um filho são profundamente afetados e precisam de tempo e espaço para se reajustarem à nova realidade. Nas diversas pesquisas que se tem feito sobre o tema, verifica-se que a idade da criança parece não ser o fator que mais pesa para tentar medir o impacto da dor. A perda de um filho por morte é sempre mais intensa e dolorosa que qualquer outra.

É por isso necessário que os pais possam ser respeitados e haja tempo para que vivenciem as diferentes fases que compõem um processo de luto. Para Miles, os pais em luto parental passam por três momentos: 1º momento – o choque e negação, 2º momento – o pesar intenso, 3º momento – a reorganização e recuperação. Estes momentos vão permitir aos pais a capacidade necessária e fundamental para reencontrarem um sentido à sua vida.

Quando existem outros filhos, estes podem ser elementos protetores da família ajudando os pais a canalizarem o seu papel enquanto cuidadores. Esta pode ser uma estratégia de recuperação, enquanto se dedicam ao cuidado do filho presente encontram um sentido para a sua vida.

Reaprender a viver sem o filho é a ultima fase da superação do luto.

Sentimento de culpa

Muitos dos pais sentem-se culpados e fazem relatos de sentirem que estão a ser castigados ou atribuem a culpa a terceiros. Essa atribuição de culpa pode ser canalizada para o divino, para questões de ordem médica ou para o próprio filho que morreu.

Datas comemorativas como os aniversários, dia da mãe/pai e a época do natal podem ser momentos devastadores para qualquer pessoa em luto, mas principalmente para os pais.

Capacidade de recuperação/recovery

Por mais doloroso e intenso que um sentimento possa ser, acredita-se que o ser humano é capaz de o superar. No caso do luto o entendimento não é diferente. Os pais e as pessoas em geral possuem ferramentas psíquicas capazes de superar a dor e a perda sentida, mas para isso é necessário que encontrem uma justificação ou algo a que se possam “agarrar”.

Existem inúmeros exemplos surpreendentes de pais que reaprenderam a viver após a morte de um filho. No entanto, uma coisa é certa, a sua forma de ser e estar, a forma de olhar o mundo e viver cada momento sofreram alterações profundas e significativas nas suas vidas, sendo necessário uma adaptação à nova realidade.

Por mais utópico que o tema pareça, é possível encontrar um caminho de reaprendizagem.

Retirado e adaptado de Gonçalves, Tânia Teixeira Jacinta – Luto parental em situações de morte inesperada: reações à perda, estratégias de coping e perceção de qualidade de vida. Lisboa: Faculdade de Psicologia – Universidade de Lisboa, 2014. Tese para obtenção de grau de mestrado integrado em psicologia.

2 opiniões sobre “O Luto Não é uma Doença, Mas Pode-nos deixar ‘Doentes’ Quando Perdemos um Filho

  1. Maria José Baltazar Pais Setembro 20, 2019 — 5:50 PM

    Posso dizer que é a dor mais forte que senti. Perdi a minha filha no dia 24 dez 2001 com 20 anos, uma dor que nunca acaba. O sofrimento a dor a revolta a saudade a vontade de desistir,… Mas tenho que ser forte tal como as outras mães que passam pelo mesmo desgosto, ir em frente aprender a viver de novo sobreviver em cada dia que acordamos dos pesadelos vividos todas as noites mesmo quando não há sono… Não é fácil…. Fiz tudo o que podia. Trocava minha vida para ela não partir ou para a ter de volta… Mas é impossivel. Um dia irei te ter nos meus braços. É assim que eu vivo. Um dia vamos nos encontrar

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  2. Maria José Baltazar Pais, obrigada pela sua partilha tão pessoal e tão relevante. Certamente, outros pais vão se identificar com a sua dor. Dos casos que vou acompanhamento, eu diria que a saudade permanecerá sempre e não há que lutar contra ela. É preciso sim, reconhecer esse vazio e saber (ser capaz de) aceitá-lo na realidade. Refazendo uma nova forma de sentir a própria vida. Um grande abraço para si.

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