Separar a vida Pessoal e a vida Profissional do Psicólogo, será possível?

Sabemos que são várias as categorias profissionais de maior exposição ao risco de desgaste profissional, principalmente as que dedicam grande parte das suas ações a lidar com o sofrimento e dor de terceiros. Falamos de médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, bombeiros, juízes, assistentes sociais, polícias e sim…psicólogos!

Não podemos ignorar que existem riscos psicossociais também para os profissionais de psicologia, pelo tipo de aliança terapêutica que estabelecem entre a pessoa (cliente) e o terapeuta (psicólogo). Este risco poderá pôr em causa a qualidade do seu trabalho e da própria aliança, uma vez que ao lidar com o sofrimento alheio, pode influenciar a sua vida pessoal através da transmissão de alguns estados emocionais. Estes custos podem facilmente provocar um burnout (exaustão emocional) e consequentemente, uma tendência para a intolerância para sustentar o sofrimento e dor dos seus clientes. Mas nem sempre é fácil separar o “joio do trigo”.

Vida Pessoal versus Vida Profissional do Psicólogo

Eu diria, da minha experiência que o terapeuta (principalmente o psicólogo) está sempre em alerta embora possa não estar sempre em ação. Com o aumento de experiencia profissional, desenvolve-se também o amadurecimento fundamental nesta área profissional. Com essa evolução cresce a capacidade de gestão de emoções, muitas vezes interpretada como alguma frieza que pode transparecer em alguns momentos da vida pessoal. No entanto, sabemos que essa frieza tem de ser posta de lado no contexto da vida profissional.

Depois, existe sempre o estigma, por ser-se psicólogo tem-se sempre resposta adequada para tudo e por isso, somos dotados de todas as soluções para os problemas dos amigos e conhecidos dos amigos.

Há quem fique muito chocado se dizemos uma asneira quando não concordamos com algo ou se nos salta a tampa de angústia, se o nosso clube está a jogar mal. Há quem diga, por ser-se psicólogo não se pode ter pensamentos maus.

Bom, somos pessoas lembram-se? Também cometemos as nossas asneiras na nossa vida pessoal (oh, se cometemos!) e também nos sentimos muitas vezes frustrados e cansados. Choramos e rimos como crianças e sim, também tomamos más decisões. Infelizmente, acontece magoarmos pessoas que gostamos mas não ficamos dessolados por completo, sabemos que isso é viver e sabemos que errar também é crescer. Podemos necessitar tempo para nós e tempo para gerir emoções internas e sabemos o quanto isso é relevante para o nosso trabalho!

Já pensaram no árduo que pode ser acabarmos de receber uma má noticia, uma notícia muito triste e estarmos no timing exato para iniciar mais uma sessão com um cliente e com ele, celebrar uma vitória importante? Bom, é doloroso para nós, mas sabemos que isso é ter a capacidade de lidar com os outros, mas sobretudo termos a capacidade de gerir os nossos “tempos emocionais”.

Nem sempre é possível adiar sessões. Se podermos faze-lo ótimo! Obviamente, não queremos que tal tenha impacto na evolução do cliente, porém se o podermos evitar melhor. O mesmo acontece com os nossos períodos de férias. Estes são geridos ao detalhe de modo a diminuir o seu impacto e assim torna-lo o menos doloroso possível para cada cliente.

Não somos perfeitos e nem queremos sê-lo, pois só assim podemos colocar-nos mais facilmente no lugar do outro. A tal empatia e compaixão tão necessárias na nossa profissão.

Autocuidado dos psicólogos, mas isso existe?

Quando falamos em autocuidado, falamos na capacidade de cada pessoa cuidar de si mesma. Cuidar significa dar conforto, estabilidade e harmonia quer seja física ou psicológica. No caso dos psicólogos o autocuidado assume uma elevada importância, pois se este não se cuidar a qualidade do seu trabalho é inevitavelmente reduzida.

Então importa promover comportamentos que possibilitem a obtenção de uma qualidade de vida estável e um bem-estar generalizado, como em qualquer outra profissão de desgaste ou como qualquer outra pessoa. Muitas vezes, esquecemo-nos que estes profissionais, apesar de nos fazerem lembrar as histórias de quadradinhos dos super-heróis, estes não o são.

Que estratégias são usadas pelos psicólogos para os ajudarem a superar o stress a pressão e a frustração?

Individualmente, cada psicólogo pode optar por usar estratégias muito diversificadas à luz das suas necessidades e ferramentas internas, tais como:

– Rede de suporte profissional de partilha de práticas;

– Recolha e análise de comportamentos menos positivos da sua intervenção de modo a aprimorar as suas skills;

– Criação de um espaço pessoal que possibilite momentos de descontração, relaxamento e prática de atividades lúdicas que permitam afastar-se emocionalmente do seu contexto de trabalho (dedicar tempo para si mesmo);

– Privação de informação na sua rede social de modo a evitar exposição que possa ser má interpretada na separação do que é o Eu-Psicólogo e o Eu-Pessoa;

– Tendência para menos exposição dos seus acontecimentos mais negativos da sua vida pessoal, pela interpretação de que os outros não saberão interpretar adequadamente os seus sentimentos;

– Necessidade constante de procurar informação atualizada com a frequência de formação;

– Por vezes é necessário recorrer a terapia pessoal;

– Praticar atividades física regular “pois favorece a desconexão de questões associadas ao trabalho e contribui para um significativo bem-estar físico”;

– Evitar abordar temas diretamente relacionados com a sua vertente profissional em atividades sociais com amigos e familiares (esta é uma questão por vezes muito difícil de gerir);

retirado e adaptado de: Mota, A. (2017). O autocuidado do psicólogo clínico: equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Dissertação para obtenção de grau de mestrado integrado em psicologia. Universidade de Lisboa: Faculdade de Psicologia.

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