A Arte de Quem “Engana” Quem: Terapeuta vs Cliente

Quem procura ajuda psicológica, procura em primeiro lugar um profissional de confiança, de preferência que possa ser referenciado por outro profissional ou por alguém de quem temos apreço. Mas será que quando se procura ajuda psicológica, seja ela para que fim for, se está preparado para partilhar alguns dos segredos mais íntimos?

Alguém me dizia esta semana que um “segredo é um segredo” e por isso, em circunstância alguma deve ser revelado. Contudo, para que a terapia funcione o psicólogo terá de conter esse conhecimento. E porque é tão importante ter esse conhecimento? Porque ele pode ser a chave ou a razão para compreender um comportamento, um pensamento ou uma crença e assim trabalhar sobre ele.

Quando se procura ajuda psicológica, não nos vem à cabeça a possível necessidade de partilha de algo mais concreto ou que “ficou lá no passado”, não pensamos em primeira instância partilhar segredos, muito menos os mais íntimos e os que nos envergonham. Queremos sobretudo, ter respostas e de forma rápida. In(Feliz)mente, a terapia não funciona dessa forma. Ela é um processo e como qualquer outro, é necessário passar por diferentes fases que podem ser sequenciais e transitórias, porém fundamentais para a obtenção do sucesso que se propõe atingir.

Muitas vezes o psicólogo, sem que a pessoa (cliente) se aperceba, acaba por tocar num ou outro ponto que faz a pessoa balançar, estremecer ou sentir-se incomodada. É normal que isso aconteça, afinal de contas estamos perante um estranho que nos começa a “bombardear” com interrogações, algumas delas parecem até nem fazer sentido algum. A pessoa começa a tossir, a ficar vermelha a mexer-se na cadeira ou tenta bruscamente mudar de assunto, há inclusive quem expresse indignação “isso não importa agora e nem é o motivo por que vim cá”. Este momento também pode ser crucial, pois é aqui que muitas pessoas desistem da terapia, pois não estão preparadas para enfrentar-se a elas próprias, isto é, não estão preparadas para abrir o baú mental e começar a “investigar” o que está por lá.

Grande parte das vezes cabe ao psicólogo assumir uma posição de desconhecimento, demonstrando não se aperceber o quanto a pessoa está a sentir-se incomodada, para poder aceder a esse conteúdo. Não leve por isso a mal, se ao contar algum dos seus segredos ele parece não ter qualquer efeito no psicólogo, não se esqueça que este está formatado e preparado para lidar com estas questões, por mais bizarras ou difíceis que possam parecer.

A experiência tida ao longo dos anos dá ao psicólogo mais competências (skills) que complementam as técnicas previamente adquiridas ao longo de formações e ajudam a camuflar os seus próprios sinais e sentimentos. O psicólogo, como ser humano que é, não está isento emocionalmente, por vezes também se sente desconfortável ou surpreendido, contudo cabe-lhe a ele gerir a situação de forma a não transparecer para o outro. Lidar com pessoas é uma arte fantástica de estabelecer relação com o outro, por isso quando pensar em tentar “enganar” ou omitir para o psicólogo, não se apresse a achar que foi capaz de faze-lo sem que este se tenha apercebido antecipadamente. Muitas vezes essa é uma estratégia utilizada em terapia para poder trabalhar situações mais a fundo e traze-las para o diálogo.

Não estamos aqui a afirmar que o psicólogo sabe sempre descriminar a omissão de conteúdos e, nunca se deixa levar pelo discurso apresentado pela pessoa. O que estamos aqui a querer refletir é que da mesma forma que tenta enganar o seu terapeuta, você também vai ser enganado, nesse jogo de palavras e comportamento. Mas uma coisa é certa: se deseja verdadeiramente evoluir enquanto pessoa não deixe de procurar um terapeuta, quer seja porque tem necessidade de compreender algo que gostava de esclarecer, deseja mudar hábitos e atingir objetivos.

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