O Que os Desenhos Dizem Sobre as Crianças?

O desenho é para a criança uma atividade bastante prazerosa e que por norma aderem bem. As crianças começam por explorar o desenho através de uma pega mal aperfeiçoada (forma como pegam com a mão no lápis utilizando toda a superfície da palma para sentirem o total domínio pelo lápis) e quando passam a dominar, transformam essa pega numa pinça a três dedos. Por ainda não possuírem toda a destreza motora e cognitiva, o desenho inicia-se pela atividade de riscar energicamente o papel.

Conforme as crianças vão amadurecendo do ponto de vista físico e intelectual, os seus traçados vão ganhando forma. O primeiro esboço é chamado de garatuja ou girino e assume uma figura que podemos caraterizar por uma bola (ou várias) e pequenos traços que podem estar juntos ou separados a essa bola e que vão representar a “mãe”, o “pai” ou o “cão”.

Como sabemos, os desenhos são uma ferramenta muito utilizada no contexto terapêutico, mas não só. O desenho por ser uma forma de expressão não-verbal, é um recurso muito utilizado na criança, principalmente pelo fato de esta ainda não ter no seu domínio todas as competências comunicacionais, em particular a esfera verbal (linguagem) que permitem essa comunicação. Em vez disso, a criança através do desenho (da expressão artística, livre e espontânea) expressa as suas ideias, frustrações, interesses e questionamentos.

Existem muitas formas de usar o desenho de uma criança. Podemos usá-lo não só na ação terapêutica de avaliação, como no processo de ajuda, no contexto familiar e no contexto de lazer/social.

Em relação á questão avaliativa do desenho, gostaria de salvaguardar aqui que se antigamente se pensava que o desenho era uma forte e fidedigna forma, diria mesmo fiel e completamente transparente de aceder ao conteúdo interno da criança, hoje sabe-se que isso não é bem verdade.

Pedir a uma criança que desenhe a sua família, sem que a pessoa que pede seja detentora de conhecimento científico pode ser gravemente prejudicial para a criança, pois pode-se facilmente correr o risco de fazer uma interpretação errada desse mesmo desenho. Isto acontece, porque sabemos hoje mais do que nunca, que o desenho como recurso de avaliação não pode nem deve ser usado de forma isolada. Por outro lado, sabemos que o desenho é uma forma de projeção interna da criança para o mundo externo e que esta pode ser facilmente interpretada baseando-se em subjetividades.

É por isso que se diz e alerta para que, tão importante quanto o produto final é o processo de criação do mesmo. Se pegarmos no desenho de uma criança, sem termos assistido à sua criação e termos tido o esclarecimento por parte da criança que o executou, podemos correr sérios riscos de o interpretarmos à luz das nossas próprias projeções e ideias.

O desenho é uma forte ferramenta terapêutica, pois permite através dele iniciar um diálogo, explorar acontecimentos e relações. Quando uma criança se rejeita a fazer esse tipo de atividade há que ter em conta algumas considerações, como por exemplo o estádio de desenvolvimento. Há crianças que deixam de ter prazer a desenhar, por encontrarem noutro tipo de atividades o mesmo retorno positivo emocional. Por outro lado, as crianças inibidas com grande dificuldade de expressão, por norma realizam uma grande resistência a este tipo de atividade. As crianças pouco imaginativas, com dificuldade de entrar no imaginário também podem ter dificuldade em encontrar algum prazer neste tipo de atividade.

Importa esclarecer que ao falarmos em “projeção” estamos a referir-nos á capacidade que possuímos em colocar para fora ideias, sentimentos, emoções e sensações numa imagem, num objeto através do desenho e da criação de uma cena figurativa do nosso estado interior. É por isso que se diz que o desenho é uma técnica projetiva que permite chegar ao Eu. Ainda que exista atualmente muita controvérsia sobre esse domínio como abordamos no início deste artigo, esta não deixa de ser uma técnica bastante usada no domínio da psicologia e na intervenção com crianças.

Porque é que é tão importante estar presente?

Quando a criança mergulha no seu interior e começa a colocar no papel tudo aquilo que a ela lhe faz sentido, deve-se observar a tarefa com acuidade e detalhe deixando a criança “explorar-se a si mesmo”. Ao longo da produção do desenho podem existir alterações de humor como expressão da raiva, da tristeza, da alegria por exemplo, que são importantes para compreender as relações que a criança estabelece com as figuras que desenha ou com um cenário em particular.

Porque é que é tão importante no fim da produção clarificar com a criança?

Quando chegamos à fase adulta do desenvolvimento, atingimos uma maturação que na grande maioria das vezes se torna rígida, intuitiva e pouco criativa (felizmente que não é a todos da mesma forma que acontece este fenómeno de uma espécie de cristalização…ainda assim…) que não nos permite interpretar à luz da simplicidade, o desenho produzido pela criança.

Neste sentido, é de extra importância clarificar com a criança sem conotação de justificação, os elementos presentes no seu desenho: que elementos são, quem são, onde está o próprio, o que estão a fazer, o que os elementos estão a sentir, o que sentiu ao produzir e terminar o desenho.

É muito natural que à luz das nossas próprias convicções, interpretemos algo como um irmão e a criança esclarece que é o vizinho ou o amigo da escola, por exemplo. Mas existem muitas outras combinações mais complexas e de um teor mais subjetivo ou objetivo no desenho que poderemos colocar em causa ou em risco de má interpretação.

Não é objetivo deste artigo explicar como se faz ou pode fazer a interpretação de um desenho, contudo parece-me interessante partilhar algumas considerações a ter no ato em que se observa um desenho, deixando apenas alguns indicadores. Aconselho a quem procura dominar a técnica, a leitura aprofundada sobre a temática.

 

Curiosidades…

O tamanho do desenho da figura humana – reflete a própria autoestima da criança incluindo a importância do tamanho da figura no global, o tamanho de cada um dos membros e a ordenação, também é relevante.

A distância entre elementos – a distância entre os membros da família simboliza a distância emocional entre eles, embora esta interpretação deva ser acautelada com a recolha ou aplicação de outras provas/instrumentos clínicos.

As omissões – não se considera comum a criança omitir a sua própria figura no desenho, se esta está a desenhar a sua família por exemplo. Esta omissão pode ser interpretada como sinal de sentimentos de inadaptação ao contexto ou sensação de não-pertença ao meio. Podem ainda ocorrer omissões de outros elementos que se considere significativos, neste caso deve ter-se em conta o que a criança clarifica com a sua produção e a aplicação de outras provas/instrumentos clínicos complementares.

A omissão de detalhes como as orelhas, o pescoço, o nariz é comum tendo em consideração o grau de desenvolvimento da criança. Como explicámos no início, a criança começa por executar um desenho muito pobre em detalhe que ao longo do tempo vai ganhando formas mais concretas e aproximando-se cada vez mais ao conteúdo real.

A cor – os desenhos a cores revelam mais sobre a personalidade que os desenhos cromáticos pois são mais ricos na sua própria textura. Ao observar a cor no desenho, deve prestar-se particular atenção ao uso abusivo de alguma cor em particular. As crianças em geral gostam de usar cores variadas nos seus desenhos, enquanto crianças contraídas e emocionalmente instáveis usam frequentemente poucas cores ou uma cor única mesmo quando têm à sua disposição outras cores. Cores mais quentes como o vermelho, o laranja e o amarelo, significam quase sempre alegria e bem-estar. Cores cinzentas, pretas, castanhas são cores mais frias fortemente ligadas à tristeza. Importa, mais uma vez, ter em atenção o significado que a criança lhe atribui e o contexto em causa.

É normal o uso de cores brilhantes e primárias no inicio da infância e o aparecimento de diferentes tonalidades ao longo do desenvolvimento infantil acompanhando o tal crescimento em detalhe na criação dos seus desenhos.

O traçado – crianças que fazem muita força no lápis e que constantemente rasgam o papel, são normalmente mais agressivas, agitadas ou apresentam alguma dificuldade na motricidade fina. Também pode ser expressivo de um estado emocional à realização do seu desenho que deve ser bem ponderada. A realização de traços finos e pequenos, com pouca pressão podem ser indicadores de inibição, baixa autoestima, ou algum tipo de desajustamento emocional. Em qualquer um dos casos, esta análise não pode ser feita somente à luz do desenho.

Como foi mencionado ao longo do deste artigo, é importante que todos nós saibamos utilizar o desenho como uma fonte rica de acesso interno à criança, porém este não deve ser usado em exclusivo se o objetivo primordial for a avaliação (seja ela qual for). É importante, acompanhar esta tarefa com outras como a entrevista com os pais ou outros elementos da família alargada, recolher informações do colégio/escola, recolher dados clínicos junto do pediatra, observar a criança e estabelecer uma relação de proximidade que permita a recolha pormenorizada de outros dados relevantes.

O desenho deve ser estimulado na criança desde a mais tenra idade, deve ser dada liberdade à criança para utilizar diferentes texturas, tamanhos e formas no sentido exploratório e de descoberta. Se nos colocarmos no papel de “controladores”, vamos estar a fazer uma pressão imensa na criança e o mais certo é que esta se sinta de tal maneira pressionada que tenda a desistir rapidamente da atividade.

O desenho é uma excelente atividade para se praticar no contexto familiar na interação com a criança ou entre irmãos. Existem muitas formas diferentes de se utilizar o desenho. Podem-se criar pequenas dinâmicas/jogos entre pares ou entre interação criança-adulto. Podem-se estabelecer regras e definir objetivos mais concretos. Acima de tudo, importa reforçar que o desenho deve ser utilizado em casa e na escola como forma de expressão livre e não sobrecarregada com a necessidade de interpretação direta, correndo sério riscos de executar uma interpretação errada da própria criança. Se existirem quaisquer questões, estas devem ser colocadas à experiência de técnicos qualificados para o mesmo efeito como o caso dos psicólogos.

Para alguma questão poderá clicar aqui.

Retirado e adaptado de: Lopes, A. (2008). O desenho projetivo na criança mal-tratada – estudo de caso. Lisboa: ISPA; Farokhi, M. & Hashemi, M. (2011). The analysis of children’s drawings: Social, Emotional, Physical and Psychological aspects. Procedia – Social and Behavioral Sciences; Fattal, I. (2017). The hidden meaningsof kid’s shapes and scribbles. The Atlantic, https://www.theatlantic.com/education/archive/2017/10/the-hidden-meaning-of-kids-shapes-and-scribbles/543873/

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