Viver com Um Vazio Insuportável e um Cheio Que Não se Entende

Sentimo-nos muitas vezes “vazios”. Esses momentos ocorrem sem quase darmos por eles, e em grande parte, após um momento elevado de stress que pode ser gerir um conflito pessoal ou profissional, tomar uma grande decisão que não sabemos ao certo que é a correta. Às vezes, também nos sentimos demasiado “cheios”. Cheios das pessoas, dos outros e de tudo. Cheio de nada ou totalmente vazio.

Agora imagine que essa sensação de “tudo e nada ao mesmo tempo” passasse a ser uma constante diária. Imagine sentir que por um lado se identifica com tanta coisa e com tantas pessoas, mas por outro, não na verdade, não se sente parte de ninguém, os outros não fazem tanto sentido assim.

Viver com uma perturbação de personalidade borderline (PPB) é assim. Um viver de estado limite das emoções a toda a hora, oscilando com momentos de grande raiva e por outro, momentos de grande felicidade. Borderline, não é o mesmo que uma perturbação bipolar. No caso bipolar os estados de oscilação são mais longos (podem durar meses). Nas situações borderline as mudanças são repentinas, intensas e constantes.

A PPB é das perturbações de personalidade mais comuns na prática clínica e das mais exigentes ao nível relacional. Estabelecer uma relação e aliança terapêutica pode ser muito desgastante não só para a pessoa, como também para o terapeuta. É necessário estar-se disponível ao nível terapêutico para as exigências do trato e contato com quem sofre de perturbação borderline. Muitos dos profissionais sentem um elevado desgaste no trato deste tipo de pessoas, pois a exigência da relação é levada ao extremo.

Esta perturbação afeta em maior escala as mulheres e estima-se que muitos dos casos que chegam às urgências psiquiatras no nosso país sejam em grande parte pessoas que sofrem de perturbação borderline. As suas características passam por impulsividade, desregulação emocional, instabilidade das relações interpessoais e ideação suicida crónica.

A PPB é caraterizada por um padrão difuso de instabilidade das relações interpessoais, da autoimagem, dos afetos e de impulsividade acentuada que surge no início da vida adulta e que está presente numa variedade de contextos.

De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-5), os critérios de diagnóstico de Perturbação de personalidade borderline incluem cinco ou mais dos seguintes:

1 – Esforços desesperados para evitar abandono real ou imaginário;

2 – Um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos caraterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização;

3 – Perturbação da identidade: instabilidade acentuada e persistente da autoimagem ou da perceção de si mesmo;

4 – Impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente autodestrutivas (exemplo: gastos excessivos, atividade sexual, abuso de substâncias, condução irresponsável, compulsão alimentar);

5 – Recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento automutilante;

6 – Instabilidade afetiva devida a uma acentuada reatividade de humor (exemplo: disforia episódica, irritabilidade ou ansiedade intensa com duração geralmente de poucas horas e apenas raramente de mais de alguns dias;

7 – Sentimentos crónicos de vazio;

8 – Raiva intensa e inapropriado ou dificuldade em controlá-la;

9 – Ideação paranoide transitória associada a stress ou sintomas dissociativos intensos.

Uma grande parte das pessoas com este tipo de perturbação de personalidade apresentam um risco elevado de suicídio e de outros comportamentos autolesivos, pelo fato da ocorrência de uma intensa desregulação emocional. Para uma pessoa borderline o sentimento é que não vale a pena viver a vida a não ser que se sinta conectado a alguém que lhe atribua uma atenção plena. Porém, a exigência tornasse tão elevada, estando constantemente disponíveis para a outra pessoa que a relação entre ambas tornasse disruptiva e disfuncional, tornando o tipo de relação muito instável e de baixa qualidade. Os tipos de relações são assim afetados, não só na esfera pessoal como profissional.

É possível um tratamento?

A terapia comportamental dialética (TCD) é uma técnica de psicoterapia que combina estratégias da terapia cognitivo-comportamental e treino de habilidades emocionais e sociais. Esta técnica tem vindo a mostrar-se eficaz no tratamento da perturbação de personalidade borderline, promovendo a regulação emocional, melhoria dos relacionamentos interpessoais, tolerância à angústia e autocontrolo.

Os princípios básicos da terapia comportamental dialética compreendem:

A. enhancement da regulação emocional que envolve estar atento a aceitar as experiências emocionais da validação.

B. mindfulness (atenção plena – estar no “aqui e no agora”).

C. Desenvolver capacidade de tolerância à angústia, através de meditação/técnicas de respiração e relaxamento.

D. Exposição aos estímulos que desencadeiam emoções negativas, contrariando comportamentos evitantes, criando novas experiências.

Adaptado de: O impacto da perturbação de personalidade borderline na decisão clínica e na relação com os profissionais de saúde, tese de mestrado integrado em medicina/faculdade de psiquiatria, Joana Filipa Maurício Aldeias, Universidade de Lisboa, 2016.

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