A Primeira Polaroid do David

“Com vinte e muitos anos surge à primeira sessão e logo se apodera de mim uma sensação fortíssima: Estou perante uma personagem de um romance queirosiano. Alto e magro, fato de três peças de corte vintage, diria mesmo arqui-vintage, barbicha e bigodinho de pendurar balões. Tudo nele transpira formalidade, a forma lenta como se move, o discurso perfeito, perfeito, como se estivesse a ler e não a falar. Estou perante a pessoa menos pessoa e mais pessoa que eu já vi. Tão próprio e tão distante.

Senta-se muito direito e diz-me que me procurou porque está desesperado e já não pode sobrecarregar mais os amigos. Foram eles que o enviaram. Está triste e só. Só, porque o namorado de há 3 anos emigrou e o David, não conseguindo tolerar a distância, decidiu terminar a relação que tinham. “Não podia ficar com ele sem poder estar com ele e agora fiquei sem ele de todo.” Fala-me de dor insuportável. Fragmentação, fracionamento de si. Desejo de morrer. A vida parece-lhe uma miragem: vê-a de longe mas não a sente nas veias. Está arrependido de não ter mantido a relação. Mas se o Manel quis emigrar não o podia prender a si. Se o Manel preferiu ir, então que amor tinham entre os dois? Os dias são passados a tomar analgésicos fortíssimos (tem uma doença crónica dolorosa que se agravou com este contexto) e ansiolíticos. Trabalha em esforço diariamente.

O David é filho único criado pelos dois pais e a avó materna. A mãe e a avó tinham sido vítimas de violência doméstica e haviam fugido de casa, para Lisboa, quando a mãe ainda era criança. Passaram muitas privações, sempre juntas. O pai e a mãe casaram sem amor e viviam em constante conflito com o filho. Muitas vezes o David sentia que era através da crítica e confronto com ele que os pais se uniam e descobriam alguma ligação conjugal. O David sempre foi um excelente aluno, bom a todas as disciplinas. Muito isolado, sentindo-se sempre diferente dos outros miúdos e sem qualquer vontade de interagir com os colegas, tinha na avó a sua maior referência e o apoio nas alturas em que se sentia violentado pelos pais e em que agredia e se defendia dos pais. Passou muito tempo da infância e adolescência a ler e a pensar. Cresceu intelectualmente muito rápido e fê-lo para poder melhor argumentar com a família. Um adulto no meio de três adultos. Sempre que me falava da sua infância passavam por mim imagens de um crescido pequenino, sisudo, amuado. A sua voz tem, ainda hoje, algo do amuo e da agressividade passiva de sempre.

(…)

Aqui estava eu perante esta personagem. A minha sensação à saída das primeiras sessões era de perplexidade: nunca tinha estado em terapia face a alguém tão disfarçado. Parecia um poço de força e virtude e distância e o meu sentir era de espanto.

David narrava a sua vida, o que pensava e o que se passava, como tantos clientes. Até aqui, nada de novo: Estórias, acontecimentos, esta semana passou-se isto e aquilo, relato racional e intelectualizado, no fundo a nossa maneira humana de comunicar (…).

As primeiras sessões costumam ser bidimensionais, e nesse aspeto, o David não era diferente. Mesmo quando me dizia que sofria muito, isso não se fazia sentir. Quando me falava de vaguear sem destino pela cidade, eu não conseguia ver o homem ali. Eram os relatos de uma personagem muito bem descrita por um qualquer escritor talentoso com as palavras, mas não com a vida.

O meu primeiro ímpeto terapêutico foi encontrar uma forma de ver o homem que ali estava. Fui fazendo a minha investigação fenomenológica, explorando e refletindo o que o David me trazia, sem pressas. Sou um ser muito apressado e algo impulsivo, mas ao longo deste quase 18 anos de prática clínica consegui ganhar a calma em mim de esperar que o cliente chegue ao seu momento de revelação e depois, ao nosso momento de revelação. Tivemos condições para falar sobre a sua forma de estar em sessão lá para a 5ª ou 6ª vez que nos vimos, bem mais rápido do que estava à espera, confesso.

O David abriu os costumeiramente semicerrados olhos, gesto que nunca lhe tinha visto até ali. E disse, na habitual sisudez, mas com uma subtil vivacidade: “Nunca tinha visto isso assim. As pessoas apaixonam-se facilmente por mim, mas tenho a sensação que ninguém me vê para além do fato. Esta maneira de estar é …” E olha para mim de novo, como se me tivesse visto pela primeira vez, como se tivesse sido visto pela primeira vez.”*

É interessante e inexplicável a sensação que é ver no cliente a clareza das suas palavras, quando finalmente se sente parte do processo. É capaz de reconhecer e confiar no nosso trabalho para evoluir, para se superar a si mesmo.

Este texto trago até vos para que possam ter a ideia de como se processa um trabalho terapêutico. Como nós terapeutas, que estamos do outro lado, observamos, vemos, cheiramos, sentimos, percecionamos, pensamos e devolvemos o que a experiência e conhecimento nos permitem sobre aquele outro que se senta connosco no consultório.

*Excerto do livro “Intervenção em Psicologia Clínica e da Saúde: Modelos e Práticas” (2012) com a coordenação de Isabel Leal, Filipa Pimenta e Marta Marques”, texto “Está Alguém a usar esse fato de três peças? Uma perspetiva fenomenológico-existencial sobre um psicoterapeuta” de Guiomar Gabriel, p.155-158

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