As Crianças em “Estado Limite”

O motivo que leva os pais a levar uma criança a uma primeira consulta psicológica prende-se normalmente por alterações comportamentais no contexto escolar, familiar/social ou em ambos. Os pais começam por interpretar os primeiros sinais como uma normalidade do processo e desvalorizam por vezes a continuidade dos mesmos. Quando se veem a par de diversas questões por parte da escola e normalmente da sua rede de suporte, sobretudo os amigos e familiares mais próximos, a família sente então necessidade de procurar ajuda.

Os pais sentem-se na sua maioria culpabilizados, entre o desejo de uma criança “normal” e o estigma de poder vir a necessitar de algum tipo de intervenção terapêutica. Em certos momentos, para a própria família torna-se doloroso pedir ajuda, pois existe um sentimento de falhanço total na competência parental.

Algumas alterações comportamentais só são mais evidentes a partir do momento que criam maior visibilidade para o exterior. Enquanto se mantém “gerável” do ponto de vista da família nuclear, ou seja no centro da família, a situação é mantida numa espécie de segredo interno na esperança que essa fase mude. Sim é, certo que algumas dificuldades vão sendo ultrapassadas pela família pois fazem parte de um processo natural de amadurecimento da própria criança, mas sobretudo dos pais que também estão a crescer em conjunto com a criança e a aprender a criar as suas próprias ferramentas de atuação.

Quando em contexto de consulta nos apresentam uma criança instável do ponto de vista comportamental, é complexa a analise e observação que se faz à criança e ao sistema família que não deve ser desprezado. Em certos momentos da entrevista deparamo-nos com incoerências entre o pai e a mãe ao nível das aquisições, como a marcha e a linguagem e da perceção que cada um tem sobre o mesmo problema.

 É pois necessário, uma cuidadosa interpretação para harmonizar as informações recolhidas. Nem sempre as informações recolhidas são claras por mais que tentemos que os pais utilizem exemplos para identificar o que pretendem dizer quando descrevem um determinado comportamento da criança. O mesmo acontece no campo específico da criança, quando a recebemos pela primeira vez em consulta. É por isso que é tão importante o estabelecimento de uma relação terapêutica segura e de confiança com a criança e isso dá-se durante as primeiras consultas. Algumas crianças estão mais disponíveis para essa nova relação, outras pelo seu próprio receio tornam-se resistentes. Nesta altura, é necessário estabelecer um caminho seguro até à criança e a melhor forma de o concretizar é através de coisas que ela goste de conversar ou fazer.

Lonely-Boy-RS

As crianças “Estado limite” são caraterizadas por apresentarem uma grande oscilação entre a necessidade da autonomia, portanto liberdade para explorar o mundo que a rodeia e por outro, a proximidade, isto é, o sentimento de pertença e proteção afetiva e capacitante. A criança encontra-se numa espécie de limbo difícil de gerir do ponto de vista do sofrimento que lhe causa.

A expressão ou definição “Estado limite” é traduzida na perturbação borderline da personalidade, para definir as crianças que apresentam maior dificuldade na regulação do afeto, no controlo dos impulsos e no funcionamento interpessoal. Estas crianças manifestam uma angústia latente de desproteção, medo da perda e abandono. Se pensarmos numa criança com depressão vamos encontrar muitas semelhanças, daí se tornar muito evidente a necessária recolha de dados feita com os pais e com a escola.

As pessoas com personalidade borderline são pessoas dependentes de outras que lhes são próximas como familiares, amigos ou colegas, no entanto elas têm tendência a agonizar uma cólera irracional quando frustradas, muito em particular, por estas pessoas mais próximas. Porém pelo fato de apresentarem dificuldade para estarem sozinhos, procuram essa companhia de forma não calculada, não importa por isso a qualidade ou razão dessa mesma relação. No caso da adolescência existe uma forte procura por proximidade de outro. É a partir daqui que começam a ocorrer relacionamentos pouco duradouros e promíscuos de maior risco.

A personalidade borderline assenta num conjunto de características, nomeadamente nas possíveis alterações deficitárias na componente neurobiológica, no temperamento e na cultura isto é, contexto onde a criança se encontra inserida.

Estudos recentes levantam a questão acerca das crianças com perturbação da personalidade borderline ou se quisermos “estado limite” se, o fato destas crianças passaram por vinculações pouco profundas na fase infantil, entre a proximidade e afastamento e na procura e criação de espaço de autonomia na relação entre a mãe e o bebe, serão a terra fértil do desenvolvimento desta perturbação. Relações ansiolíticas entre mãe e bebe, pouco estimulantes e pouco previsíveis transferem para a criança claros indicadores de pensamentos ambivalentes entre a segurança e a insegurança.

Muitos dos comportamentos observados nas crianças passam por instabilidade, irrequietude, dificuldade de controlo do impulso e da gestão da frustração. As crianças com perturbação borderline da personalidade manifestam um medo intenso de serem abandonadas, apresentam por isso uma intolerância para lidar com momentos em que seja necessário ficarem sozinhas.

Os estudos indicam que a maioria das perturbações de personalidade, estão relacionadas com problemas ao nível da parentalidade. O ambiente familiar é sentido para a criança como um espaço hostil que gera sentimentos de confusão e negatividade, caraterizado por figuras maternas pouco afetivas e pouco consistentes nos seus comportamentos transmitindo pouca previsibilidade e ainda, figuras paternas que se encontram total ou parcialmente ausentes.

A criança em “estado limite” sente-se em certo modo desconfortável com ela própria, merecendo sobretudo a melhor atenção dos técnicos especializados, devendo existir uma avaliação cuidada de modo a traçar um plano de acompanhamento que permita à criança um maior equilíbrio e estabilidade, ajudando-a a superar os seus receios e manter uma vida em desenvolvimento.

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